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O futuro papa Bento 16 estava bem mais informado sobre o caso de abuso sexual na Alemanha do que as
declarações anteriores da Igreja sugeriam, levando a novos questionamentos sobre a forma como lidou com um escândalo que se desdobrava
sob sua supervisão direta, antes dele ascender ao topo da hierarquia da Igreja.
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O cardeal Joseph Ratzinger, o futuro papa e arcebispo de Munique na época, recebeu
um memorando que o informava que um padre, que ele aprovou ser enviado para terapia em 1980 para superar a
pedofilia, retornaria ao trabalho pastoral apenas dias após o início do tratamento psiquiátrico. O padre foi
posteriormente condenado por molestar meninos em outra paróquia.
Uma declaração inicial sobre o assunto, emitida neste mês pela Arquidiocese de Munique e Freising, depositava a
responsabilidade plena pela decisão de permitir que o padre retomasse seus deveres ao vice de Ratzinger, o padre
Gerhard Gruber. Mas o memorando, cuja existência foi confirmada por dois membros da Igreja, mostra que o futuro
papa não apenas liderou uma reunião em 15 de janeiro de 1980, aprovando a transferência do padre, como também
foi mantido informado sobre o retorno do padre às atividades.
Que papel ele exerceu na tomada de decisão e quanto interesse ele demonstrou pelo caso do padre com problemas,
que molestou múltiplos meninos em seu cargo anterior, permanece incerto. Mas o chefe de pessoal que cuidou do
assunto desde o início, o padre Friedrich Fahr, “sempre manteve uma ligação pessoal, excepcional” com Ratzinger,
disse a Igreja.
O caso do padre alemão, Peter Hullermann, ganhou nova relevância porque ocorreu na época em que Ratzinger, que
posteriormente foi encarregado de lidar em nome do Vaticano com milhares de casos de abuso, estava em posição
de encaminhar o padre para ser processado, ou pelo menos impedi-lo de voltar a ter contato com crianças. A
Arquidiocese alemã reconheceu que “grandes erros” foram cometidos na forma de lidar com Hullermann, apesar
de ter atribuído esses erros a pessoas subalternas de Ratzinger, e não ao próprio cardeal.
Representantes da Igreja defenderam Bento 16 dizendo que o memorando era rotineiro e “dificilmente chegou à
mesa do arcebispo”, segundo o padre Lorenz Wolf, o vigário judicial da Arquidiocese de Munique. Mas Wolf disse
não poder descartar que Ratzinger o tenha lido.
Wolf falou com Gruber nesta semana a pedido do “New York Times”. Segundo Wolf, Gruber, o ex-vigário geral,
disse que não conseguia se lembrar de uma conversa detalhada com Ratzinger a respeito de Hullermann, mas que
Gruber se recusava a descartar que “o nome tenha sido mencionado”.
Bento era conhecido por lidar com os casos de abusos por padres no Vaticano antes de se tornar papa. Apesar de
alguns terem criticado seu papel no tratamento desses casos ao longo das últimas duas décadas, ele também foi
elogiado pelos defensores das vítimas por levar o assunto mais a sério, pedindo desculpas às vítimas americanas
em 2008.
A passagem do futuro papa por Munique, na história mais ampla de sua vida, até agora era vista como apenas um
degrau na escada para o Vaticano. Mas este período em sua carreira recentemente passou a sofrer grande escrutínio
–particularmente seis semanas decisivas de dezembro de 1979 a fevereiro de 1980.
Nesse breve período, como mostram uma revisão de cartas, minutas de reuniões e documentos de arquivos pessoais,
Hullermann passou da desgraça e da suspensão de suas funções em Essen para um trabalho sem restrições como padre
em Munique, apesar do fato de ter sido descrito na carta que pedia sua transferência como sendo um “perigo”
potencial.
Em setembro de 1979, o capelão foi afastado de sua congregação após três casais de pais terem dito ao seu superior,
o padre Norbert Essink, que ele tinha molestado seus filhos, acusações que ele não negou, segundo anotações feitas
por seu superior e ainda presentes no arquivo pessoal de Hullermann em Essen.
Em 20 de dezembro de 1979, o chefe de pessoal de Munique, Fahr, recebeu um telefonema de seu par na Diocese de Essen,
Klaus Malangre.
Não há um registro oficial da conversa entre eles, mas em uma carta para Fahr datada de 3 de janeiro, Malangre se
referiu a ela como parte de um pedido formal para transferência de Hullermann para Munique, para que visitasse um
psiquiatra lá.
O abuso sexual de meninos não é mencionado explicitamente na carta, mas as entrelinhas são claras. “Relatos da
congregação na qual ele atuava nos deixaram cientes de que o capelão Hullermann representava um risco, nos fazendo
afastá-lo imediatamente dos deveres pastorais”, dizia a carta. Ao apontar que “não há nenhum procedimento pendente
contra o capelão Hullermann”, Malangre também comunicou que o perigo em questão era sério o bastante para ter
consequências legais.
Ele fez outra indicação clara, ao sugerir que Hullermann podia ensinar religião “em uma escola de meninas”.
Em 9 de janeiro, Fahr preparou um resumo da situação para as autoridades da diocese, antes de sua reunião semanal,
dizendo que um jovem capelão precisava de “tratamento médico psicoterapêutico em Munique” e um lugar para viver
com “um colega compreensivo”. Fora isso, ele apresentou o padre de Essen em termos quase elogiosos, como um
“homem muito talentoso, que poderia ser utilizado de várias formas”.
O papel de Fahr no caso recebeu pouca atenção até o momento, em comparação ao mea culpa de Gruber.
Wolf, que está atuando como consultor legal interno no caso de Hullermann, disse em uma entrevista nesta semana
que Fahr foi o “filtro” de toda a informação envolvendo Hullermann. Ele também foi, segundo seu obituário no site
de arquidiocese, um grande amigo de Ratzinger.
Um momento chave ocorreu na terça-feira, 15 de janeiro de 1980. Ratzinger presidiu a reunião do conselho da diocese
naquela manhã. Seus bispos auxiliares e chefes de departamento se reuniram em uma sala de conferência no último
andar do prédio administrativo do bispo, situado em um ex-mosteiro em uma rua estreita no centro de Munique.
Era um dia agitado, com a morte de cinco padres, a aquisição de uma peça de arte e cuidados pastorais em vietnamita
para os imigrantes recentes entre as questões que dividiam a agenda com o item 5d, o assunto delicado do futuro
de Hullermann.
As minutas da reunião não incluem referências às discussões de fato naquele dia, apenas declarando que um padre de
Essen, necessitando de tratamento psiquiátrico, pedia acomodações em uma congregação de Munique. “O pedido foi
concedido”, diz as minutas, estipulando que Hullermann viveria na Igreja de São João Batista, no norte da cidade.
Os representantes da Igreja dão um nome próprio para a linguagem nas minutas das reuniões, que são internas, mas
circulam entre os secretários e outros membros da diocese, disse Wolf, que possui um arquivo digitalizado das
minutas das reuniões, incluindo as da reunião de 15 de janeiro. “É linguagem protocolar”, ele disse. “Aqueles
que sabem do que se trata entendem, aqueles que não, não sabem.”
Cinco dias depois, em 20 de janeiro, o gabinete de Ratzinger recebeu uma cópia do memorando de seu vigário geral,
Gruber, devolvendo a Hullermann funções plenas, como confirmou um porta-voz da arquidiocese.
Hullermann retomou as atividades paroquiais praticamente ao chegar a Munique, em 1º de fevereiro de 1980. Ele foi
condenado em 1986 por molestar meninos em outra paróquia da Baviera.
Nesta semana, novas acusações de abuso sexual surgiram, tanto de seu primeiro cargo em uma paróquia próxima de
Essen, no norte da Alemanha, quanto de 1998, na cidade no sul da Alemanha de Garching an der Alz.
Fahr morreu há dois anos. Um porta-voz da diocese em Essen disse que Malangre não estava disponível para
entrevista. Malangre, atualmente com 88 anos, sofreu recentemente um acidente e estava confuso e não confiável
como testemunha, quando interrogado em uma investigação interna sobre o modo como o caso Hullermann foi tratado,
disse o porta-voz, Ulrich Lota
Gruber, que assumiu a responsabilidade pela decisão de devolver Hullermann a uma paróquia, não estava presente
na reunião de 15 de janeiro, segundo Wolf, e não respondeu aos repetidos pedidos de entrevista.
Fonte: The New York Times
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